Alunos de Biologia expressam menos religiosidade que os de Veterinária
Razão pode estar ligada ao estudo da teoria evolutiva, segundo pesquisa que
contabilizou citações de fé em trabalhos de pós-graduaçãoDurante o tempo que coordenou a pós-graduação em Zoologia do Instituto de
Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), entre 2007 e 2010, o biólogo
Antonio Carlos Marques desenvolveu o costume de ler os trabalhos de mestrado e
doutorado submetidos pelos alunos. Percebeu que vários deles, apesar de tratarem
de temas científicos intrinsecamente fundamentados na teoria evolutiva, traziam
referências religiosas em seus textos, como agradecimentos a Deus ou citações de
trechos da Bíblia. Ficou curioso e resolveu fazer um levantamento sobre o
assunto.
O resultado está publicado na última edição dos Anais da Academia Brasileira
de Ciência, em artigo científico assinado por Marques, seu colega Rodrigo
Willemart e o aluno Ivan Dias, que fez a pesquisa para seu trabalho de graduação
no IB.
Eles revisaram as seções de agradecimento, dedicatória e epígrafes de mais de
4,8 mil trabalhos de pós-graduação do IB e da Faculdade de Medicina Veterinária
e Zootecnia (FMVZ), publicados entre 1943 e 2009. E verificaram que cerca de 8%
dos trabalhos de alunos do IB nesse período continham expressões religiosas,
comparado a cerca de 38% da FMVZ.
"Por um lado, é uma porcentagem baixa, comparada ao nível de religiosidade da
sociedade como um todo", avalia Marques, referindo-se ao resultado de 8% do IB.
"Por outro, é um número alto, se pensarmos que estes alunos são treinados para
pesquisar e ensinar disciplinas que têm a evolução biológica como princípio
fundamental."
As referências incluem expressões como "agradeço a Deus", "agradeço ao meu
anjo da guarda", "dedico a Jesus", além de orações e citações bíblicas,
incluindo passagens do livro de Gênesis. "É um antagonismo curioso, ver duas
visões contraditórias incorporadas no mesmo documento", diz Marques. Algo que
ele considera "inadequado" no contexto de um trabalho científico. "Questões
físicas não devem ser misturadas com questões espirituais. Assim como não espero
que um padre pregue ciência, não espero que um cientista ensine religião."
Outros pesquisadores não veem problema nas citações. "Acho que tudo bem; as
pessoas acreditam no que quiserem", diz o bioquímico Carlos Menck, pesquisador
do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, que não participou do estudo.
Segundo ele, é normal cientistas acreditarem em Deus ou seguirem algum tipo de
religião, como no resto da sociedade. "Você não precisa ser ateu para ser
cientista. Só tem de saber separar bem uma coisa da outra", diz.
Menck é o atual presidente da Sociedade Brasileira de Genética (SBG), que na
semana passada publicou um manifesto online sobre ciência e criacionismo, com o
objetivo de "esclarecer a sociedade brasileira e evitar prejuízos no médio e
longo prazo ao ensino científico e à formação de jovens no país" (veja link no
final desta reportagem).
A preocupação maior do manifesto refere-se ao fato de alguns cientistas com
tendências religiosas mais radicais pregarem o criacionismo como se fosse uma
ciência e inverterem os papéis, dizendo que a evolução biológica é que não tem
fundamentação científica. "Não queremos questionar de maneira nenhuma a
religião", esclarece Menck. "Ciência e religião podem caminhar juntas; o que não
pode é tratar criacionismo como ciência. Isso, sim, é obscurantismo."
Marques considera que as declarações de fé nos trabalhos são um bom indicador
da religiosidade presente no corpo estudantil das respectivas faculdades, já que
se tratam de expressões espontâneas dos alunos, não induzidas por entrevistas ou
questionários. "Ninguém foi perguntado sobre nada. Esses alunos expressaram sua
fé porque quiseram." Por outro lado, ele não tem dúvida de que o resultado de 8%
do IB está subestimado em relação ao número real de alunos que seguem alguma
religião. O dado representa apenas aqueles que expressaram essa religiosidade
por escrito em seus trabalhos.
Afirmação. Na opinião da filósofa e educadora Roseli Fischmann, as citações
simbolizam mais uma afirmação de identidade pessoal do que uma expressão de
conflito entre ciência e religião.
"É uma forma deles de dizer que 'A ciência é importante para mim, mas não me
impede de acreditar em Deus'", avalia Roseli, coordenadora da pós-graduação em
Educação da Universidade Metodista e professora da USP. "Na ciência, as coisas
têm de ser provadas com dados. A religião é algo no qual você crê ou não crê.
Por isso é possível fazer essa conciliação interior sem maiores conflitos."
Uma das curiosidades que surgem do trabalho é a diferença no número
proporcional de expressões religiosas das duas faculdades (8% versus 38%).
Marques imagina que isso se deva ao fato de a teoria evolutiva permear o
ambiente acadêmico do IB de forma mais contundente e abrangente do que na
Veterinária.
Por outro lado, é possível que essa cultura evolutiva iniba alunos da
Biologia de expressar abertamente sua religiosidade.
"O estudo é muito interessante e teve o mérito de demonstrar, de maneira
empírica, a grande diferença de perspectiva entre essas duas realidades. No
entanto, tenho reservas quanto ao nexo causal apontado", avalia o educador Nelio
Bizzo, da Faculdade de Educação da USP, que também é biólogo. "As duas carreiras
atraem jovens com diferenças significativas em relação a crenças religiosas. É
possível que o curso de pós-graduação aumente essas diferenças, selecionando os
alunos de um tipo mais 'teórico', no caso da biologia, e possivelmente, mais
'prático' no caso da veterinária."
Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,alunos-de-biologia-expressam-menos-religiosidade-que-os-de-veterinaria-,894145,0.htm
Acredito que o motivo dos estudantes de biologia acreditarem menos em Deus do que estudantes de veterinaria seja porque o estudo da biologia é muito mais aprofundado, deixando menos furos, fazendo a crer na teoria da evolução.
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